28 dezembro 2010

Ceifador

Sei falar das crianças escravizadas
Sei falar da volta por cima
Sei falar dos sentimentos e problemas que não tenho
Sei falar das coisas que não sou
Sei falar das dores dos outros
Sei falar da falta de abrigo, abrigado
Sei falar de como tudo vai bem, obrigado
Sei falar e escrever
Sei falar "é fácil"
Sei falar, é fácil.

04 dezembro 2010

Deixe Star

Venda-me os olhos
Veda minha vida
Vide à sua volta
Vira e mexe, se solta
Venda a sua vez
Ceda, a sua voz
Inverta os papéis
Invista na minha vontade
Vista uma seda
Apaga minha sede
Revele a morte velada
Descubra o véu de veludo
Nestes tempos vindouros
A viúva não é só quem ficou
Mas aquela que se nutre
Tal qual um abutre
Da dor da saudade

07 novembro 2010

Re-sabios Entre-tidos

Ele ri e sabia
Um tanto quanto ressabiado
Que não fazia nada demais
A não ser saber
O que não se devia fazer

Era em torno desse adorno
Aquele que melhor cabia
Sem arredores, sem contornos
Que ele, entre uns e outros, tinha
A manha que à entretia

Mas o melhor de tudo
Não era o que estava por vir
Nem que era passado, ou esperado
Era que ela, sabendo de seu ressabio
Não sentia
O vazio do presente desesperado
E que realmente se entretia.

20 outubro 2010

Fiado

Não sou raso nem a razão
Nem sofro baixo com a solidão
Escrevo diferente porque me vejo igual
Se te gosto em mais de uma
É porque não ainda não sei dizer qual
Mas te guardo num caminho, uma folha de jornal
Quem sabe eu ainda não o siga
E viva o que quer que me diga
Seja na íntegra, seja na intriga
O bom mesmo é não ser legal.

02 outubro 2010

Queria não saber

Eu não sei a ordem que você põe os livros
Eu não sei a cor da sua escova de dentes
Eu não sei a hora que você termina suas tarefas
Eu não sei o quanto você gosta de mim
Eu não sei o número do seu manequim
Eu não sei quando eu posso brigar com você
Eu não sei escolher o seu melhor doce
Eu não lembro o que eu não sei
E assim fico parecendo pra você uma pessoa que não te conhece
E você continua pensando em mim toda noite, até que adormece

Apostaria com o destino que nos uniu
Que você nunca soube nada sobre isso
E que se um dia soubesse
Faria tudo ser diferente
Talvez um sonho dentro de uma prece
Ou uma mentira aparente
Que perdurasse até onde desse

Porque lembro tudo de cor?
Queria mesmo era não saber
Ter uma inteligência ignorante
Pra poder ser mais amante
E menos corante.

19 setembro 2010

Mantra 2

Minha alma
Minha calma
Me acalma

Minha alma
Se acalma
E me acalma

Minha calma
Sem alma
Se acalma
Me acalma

Minha alma
Minha calma
Me acalma
Me acalma
Me acalma

14 setembro 2010

Peixe fora d'água

Já era hora de descer do navio e finalmente voltar para casa depois de uma temporada de vários meses no mar pescando. A pesca havia sido farta e agora todos os seus amigos e amigas iriam voltar para suas famílias para então depois de algum tempo voltarem novamente para o trabalho no mar.

Fato era que "voltar para sua família" não fazia mais sentido para aquele que havia passado tanto tempo imerso em uma atmosfera de amizade e companheirismo isolado de todo o resto da humanidade. Era um lugar aonde só havia a saudade de casa e a vontade de voltar para sua morada em terra firme.

Mas agora em terra firme as coisas pareciam ter tomado o rumo inverso, a saudade agora era do mar. Mas era óbvio que não era do mar exatamente, era sim das pessoas, do amor platônico que estaria por lá também... A "família" em casa era agora estranha, já haviam se acostumado com a saudade,  com a sua ausência. O tempo que passou com seus companheiros era o que tinha feito tudo mudar, seja em momentos de distração, brigas, cia, etc.

No meio do caminho pra casa ele se via perdido. O coração já não tinha mais um lugar, uma morada. Estava indo aonde a correnteza levava, não fazia distinção da direção e nem de sentido algum. Não fazia sentido se ver entre familiares quando na verdade não passavam agora de pessoas de grande similaridade genética.

A temporada em casa o fez o ser mais sozinho deste mundo, mais ilhado e afogado entre propagandas, televisão, comida e cinema. O trabalho o tirava toda essa "diversão", mas era pra lá que ele queria ir. Era pro encontro de pessoas que gostavam da sua cia por um bom e longo tempo sem pensar mais vezes do que o necessário para cometer um crime. O convívio enclausurado oferece perigos, mas esses, ele nunca havia presenciado, se havia, era velado. Imaginava que havia encontrado o grupo de amigos mais gabaritados para dividirem suas histórias entre si. E eram.

Na volta ao mar todos reclamavam das vidas medíocres que passavam em terra firme e que a única coisa que pensavam era em voltar à pesca. Percebiam que passavam o tempo todo contando as histórias que tinham no mar, como lidar com o isolamento no oceano. Viram como era maior o isolamento na cidade, onde parece mais um arquipélago.

Torciam para naufragar e ficarem sozinhos em uma ilha e esquecer que um dia vieram a ter uma vida de fingimentos, de trabalhar por uma vida que já nem existia mais...

...

Mas agora, em alto mar, depois de tanto tempo, a saudade da família voltara. Torcia para terminar logo a pescaria e encontrar um descanso. Passar um tempo fingindo ser quem não era mais. A saudade não era da família, e sim, de quem um dia eles foram.

09 setembro 2010

O vilão

O artista é um striper nato. Gosta de se despir, ainda mais se for um anônimo. Dá a cara a tapa, mas não a sua, a de um laranja que ele mesmo cria. Se reserva no direito de disfarçar e até mentir os nomes e as histórias para que seu segredo fique assegurado.

São nessas estórias e contos que seus sonhos se tornam realidade e o poder de manipular as pessoas finalmente é possível, pois são suas crias. Manipula detalhes fazendo o leitor olhar para o lado mais forte do monstro, deixando os flancos desprotegidos do nosso dragão escritor se safar mais um vez. Ele brinca ao passo que deixa você, pobre leitor indefeso, pensar que está no controle. É um jogo arriscado, mas que termina em vitória pro autor quando vê que a discussão passa longe do alvo e acerta bem no meio do seu ego, inflando-o. Ahh, como não se viciar com tal sensação! Presas brigando entre si quando ele, o responsável pela briga, está sentado tal qual um imperador que acena e escolhe o vencedor para o ultimo golpe de misericórdia. E ainda recebe elogios, comendo-os como uvas servidas pelas mais belas mucamas e as críticas ruins são os os caroços que ele cospe em lugar fértil a fim de que dali passam brotar bons frutos no futuro.

A metalinguagem seria como um tiro que sai pela culatra, um fruto da criação, um delator espião que tenta sabotar os planos dos poetas e instaurar um golpe de estado. Há tempos ela tenta ser mais clara e objetiva, mas cai nas garras de sua natureza, sua origem, seu sangue, como uma piada para alegrar a nobreza, é o bobo da corte.

Alguns artistas insistem que só querem te entreter. Mas não se engane, pois como bom contador de estórias ele é um mentiroso nato. Então, muitas vezes, de vítima você pode passar a cúmplice.

01 setembro 2010

Rito de passagem (Projeto Telefone sem Fio)

Ilustra: Lia Fenix


Era um dia especial na casa da Chapeleira
Havia comprado todos os tipos de doces, bolos e chás para comemorar
A comemoração vinha da notícia que tinha para dar
Uma notícia que ela mal podia segurar

Tinha preparado tudo pra impressionar
Um luxo como nunca antes visto
Era fartura pra todo lado
Nem ela sabia pra que tudo isso

Queria ver todos contentes
Sabia que a festa representava um marco
Pois sendo filha de quem era
Nada seria equivocado

Deu muito trabalho toda aquela festança
Havia de tudo, até bolo na aliança
Ela não sabia como tudo começara
Tinha até penetra sem vergonha na cara

Chegou então o grande momento
Quando os convidados já estavam fartos
Era a hora do anúncio
Todos haviam lambido seus pratos

Então ela começou a falar:
"Bem vindos meus amigos
De longe vocês vieram para aqui me ouvir declarar
Vocês até agora não sabem o que eu vos tenho a compartilhar
Dada a minha paternidade eu tenho muito o que fazer
Mas até agora eu era só uma chapeleira e não podia me comprometer

Entretanto completei minha jornada depois de muito desaprender
Serei a partir de hoje não só mais uma apreciadora de chás
Não só mais uma trocadora de roupa
Serei mundialmente conhecida como a Chapeleira Louca!"
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louco
lou.co
adj (cast loco) 1 Que perdeu a razão, alienado, doido. 2 Insensato, inconsiderado. 3 Arrebatado, imoderado, imprudente, temerário. 4 Mec Que pode girar independentemente sobre o eixo em que está montado, sem comunicar a rotação a este; solto, livre: Polia louca. 5 Alegre, brincalhão, folgazão, galhofeiro. 6 Doidivanas, estróina, extravagante. 7 Apaixonado. 8 Extraordinário, fora do comum, estupendo. sm 1 Indivíduo que perdeu a razão. 2 Indivíduo extravagante, desatinado.

loucura
lou.cu.ra
sf (louco+ura2) 1 Estado de quem é louco. 2 Med Desarranjo mental que, sem a pessoa afetada estar ciente do seu estado, lhe modifica profundamente o comportamento e torna-a irresponsável; demência; psicose. 3 Ato próprio de louco. 4 Insensatez. 5 Aventura insensata. 6 Grande extravagância. 7 fam Alegria extrema, diabrura: Loucuras das crianças. 8 fam Propensão excessiva; mania: Loucura pelo futebol. 9 fam Despesa desproporcionada. Antôn (acepção 4): siso.

19 agosto 2010

Sem título

Daqui de cima da pra ver que estou longe de todos. É natal, e ninguém estaria em casa sozinho hoje. Mas tudo bem, nada que um cigarro não resolva, claro. Mas eu não fumo.

O carteiro e o cigarro

Sei bem como é ser bem tratado. Esse é um mal, saber. Fico aqui de cima achando tudo o que eu posso achar, e no final, não acho nada. Tenho a mim mesmo para convencer a sair e me surpreender, mas hoje eu resolvi fumar um cigarro. Pronto, um cigarro iria me relaxar, me tirar daqui. Seria um amigo que todos por aí parecem levar no bolso e podem até acender. Só que eu sou desgraçado demais pra me tirar daqui. Eu quero isso.

- É natal, foda-se. Vou descer e comprar na primeira banca de jornal o meu primeiro amigo, quer dizer, o meu cigarro.

Impressionante! Acho que até você ficou convencido depois que eu xinguei né? É, mas eu não. (Xingar faz a gente parecer ter mais certeza do que está falando, fica mais real entende?) Tô aqui ainda sentado, sou um personagem parado e você não vai querer ler até o fim pra descobrir o meu paradeiro. Sabe o por quê? Porque estarei bem aqui, quando sua leitura terminar, já você, talvez não. Ah, mas você é chato, tem a esperança de que no final, eu vá te surpreender..., ok, siga ao desapontamento.


Vou te contar o que eu faço pra viver: entrego cartas o dia inteiro pra pessoas que eu nunca vou conhecer. Levo até elas uma informação importante, um carinho de um amigo distante, as letras e garranchos que elas guardam com apreço em um lugar especial. Sim, sou um carteiro. Não, ninguém mais recebe cartas de amigos. Falei isso só pra te deixar com aquela frase na cabeça: "Minha época era tão boa, quando as pessoas mandavam cartas". Sou da sua época amigo*, nunca as recebi. Nem de você e nem de ninguém. Nem quando a tarefa do colégio era de cada um enviar uma carta a um "amigo" sorteado (eu a mandei, mas não recebi).

Não fique triste por mim, eu não fiquei.

Fato é que hoje temos email, sms, celulares e o escambau... e eu ainda entrego cartas. Eu ainda acho que recebê-las seria uma coisa legal. Mas não tem mais. Agora é só contas, revistas, propagandas... aquele mesmo material que você também encontra na sua caixa de correios, virtual. Mas eu sou real. Eu recebo pra entregar. Vejo muitas pessoas todos os dias, ando bastante e no final do dia eu estou sozinho, sem carta e sem amigo. Faço a informação fluir, chegar ao seu destinatário, todos se entendendo, mas eu não.


Vou escrever uma carta pra mim mesmo. Quem sabe até me sugerir ir até o jornaleiro comprar um cigarro. (Hey, você ainda taí? Insistente ham?) O jornaleiro é um cara que viu muitas coisas mudarem no seu ramo nos últimos anos. Assim como as cartas pararam de serem escritas, os jornais estão diminuindo drásticamente suas tiragens... não pense nisso.

Mas eu não estou aqui pra falar dele, estou aqui pra escrever uma carta pra mim, que eu vou me recusar a entregar. Eu procrastino de propósito. Eu sou sincero comigo mesmo. Alguns vêm a sinceridade como coragem. Mas no meu caso não é coragem porque não há medo. Sou é ingênuo mesmo, a verdadeira explicação pra muito "corajoso" por aí.


Você deve estar pensando na utilidade da carta quando se pode conversar pessoalmente. Também deve estar pensando na utilidade do email quando se pode usar o msn, gtalk, orkut e etc. A carta escrita à mão é como se fosse um desenho, um registro, um documento. Serve pra você ler e reler, guardar e pendurar (e acender também). É tal qual uma foto... mais até, pois trás um monólogo, um roteiro, um movimento, uma idéia de alguém que quis que ela fosse sua e ela está congelada no tempo. Eu seria mais feliz se pudesse entregar uma carta dessas. Ver o sorriso de alguém ao recebê-la e o seu olhar com afago pro remetente com expectativas.


(Alguma coisa foi entregue aí?)


Vou seguir com a minha carta, sem cigarro, mas eu não disse que não teria um álcool... e ela vai começar mais ou menos assim...

31 julho 2010

Sintético

Se eu tivesse coragem plantava uma árvore
Se eu contasse a verdade eu diria que que a palavra não é coragem
Não é que eu conte mentiras, mas é que eu não sou daqui, sou de lá
E de lá não dá pra ver vocês direito, então eu interpreto mal
Mas que mal tem em ser mal interpretado?
Tantos bons nomes o foram, serei apenas mais um, mas um mau
Se eu ainda estou aqui, então é prova cabal
E não saio nem a pau

Se eu tivesse coragem não contava até três
Se eu guardasse o que sinto, talvez
E como acabo com isso de vez?
Mas que mal pode ser maior que o que sinto?
Minha fala tem venenos que eu desconheço
Tramo tanto que me omito, minto
Um pouco disso até que mereço
Mas esqueço que tenho medo de mim, não de você
Você eu fecho a porta na cara, desligo o telefone, não ligo
Eu estou sempre aqui

28 julho 2010

Provavelmente

Ela não sabia que caminho pegar. Pegava qualquer condução que a fizesse pensar que estava em movimento... e mais rápida do que era capaz de calcular não importa para onde estivesse indo. Tinha um jeito doce de pedir carona que deixava o dono da carruagem não querendo chegar em seu destino próprio, pois assim a deixaria também (ou não, mas isso ninguém saberia responder).

A soma dos caminhos desencontrados percorridos era enorme. Para qualquer um que a visse daria-a quilômetros, como viajante. O problema, principalmente para ela, era que se via muito perto ainda de onde tivera um dia saido com as trouxas nas costas. Havia ainda um sentimento, talvez, de que não tivesse partido. A partida sim era difícil, o desatar, o adeus. A segurança de um lugar conhecido ganhava da busca pelo novo. Ela teimava em dizer que estava indo longe, que com os viajantes aprendia sobre novos mundos afora... mas que ela nunca esteve. Quem sabe esteve, mas voltara?!

Começava a ganhar rugas não pelo tempo, mas pelas caminhadas desperdiçadas. Buscava um lugar para descansar quando o real cansaço era de ficar parada. Fugia mesmo era de um rosto conhecido, de ser conhecida, de conhecer a si mesma. Mal sabia ela que pra sair de dentro teria que deixar outro entrar.

24 julho 2010

Vlog

Olá meus caros leitores,

             Agora no intuito de também divulgar esse blog eu resolvi começar com um vlog. Para quem acompanha meu trabalho aqui agora também poderá ver meus vídeos. O link para o canal agora estará sempre aqui em cima no menu principal. Pra você que está com preguiça de clicar aí em cima vai o link aqui: http://www.youtube.com/user/murilonm

             Caso vocês gostem dos vídeos e queiram receber as atualizações que eu for fazendo ao longo do tempo, se inscrevam no canal.

Atenciosamente, eu :)

10 julho 2010

Tiro livre indireto

Era pra me sentir sedento, sem ninguém olhar
Mas fiquei isento, pra variar
Tinha um nome comum, mesmo assim vou elogiar
Não era pra eu ter dito isso, não vou negar

Ensaio para não estragar
Ensaio para não atuar
Atuo para não disfarçar
Estrago por não atuar

Viajo para não ver
Não vejo para não viajar
Não viajo para não começar
Começo a não acreditar

30 junho 2010

Stop

Fila do pão
Coceira no ouvido
[- Até que chegue sua vez...]
Cotovelo dolorido
[- Hey, esquece o pão, pegue o bolo mais concorrido!
- Não esse não, o outro, o mais colorido.]

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Dia cinza
Cinzeiro
[- Nunca neva!]
Nevoeiro
Tem barulho
Tem fúria
Tem ira

Furadeira

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- Não queria isso? Pronto conseguiu!
- Ok, eu cheguei até aqui, e agora?
- Isso você tinha que ter pensado antes...
- Se eu tivesse pensado antes não teria conseguido chegar até aqui...

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Deixe sua mensagem após o bip.....BIP!

10 junho 2010

Voo-não-voou

Cogito um agito
Enceno um aceno
Abraço o cansaço e durmo

Venço um vício
Pago o preço
Cobro da cobra
O que eu mereço

De fato era ainda feto
Tonto tanto quanto
Afetava mesmo era o afeto
Certo é ser incerto

Fato é que nem abraço cogito
E aceno para o cansaço
Que mereço outro vício

26 maio 2010

Sem talheles

Tlês platos de tligo pala tlês tligues tlistes.
Pala todos nós, humanos, apenas um Platão.

17 maio 2010

Céu limite (Projeto Telefone sem fio)

Ilustra: Soledad Cifuentes

Se um dia conseguisse esconder todos os sonhos numa caixinha eu o faria. Assim poderia roubar não só os meus sonhos mas dos outros também e guardar para poder tê-los quando mais precisasse e achasse conveniente. Mas ainda eu não pude.

Talvez os sonhos não caibam mesmo em caixinhas, talvez nem em nossas cabeças, protegidas por cabelos ou não, e só. Nossos sonhos ficam evidentes, respiramos e transpiramos eles e quando vemos que realmente estão evidentes, aparece a negação. E ela não é só para os outros, é para si também pra ver se nos convencemos. Os sonhos não podem ser tão explícitos, precisamos de alguma forma manter em segredo, para que não nos sabotem no meio do caminho, é um plano traçado com detalhes ou não, mas não deixa de ser.

E a gente nega. Nega que queria isso ou aquilo. Não aceitamos a nossa condição de querer coisas e/ou pessoas. É, e a gente quer. Aceitar não me faz nem um pouco satisfeito com a minha condição de possuidor, nem que seja da mentira.

As vezes nos colocamos do lado de fora, descemos o castelo e fingimos não morar lá. Tudo do lado de fora parece mais bonito, é um sonho. Sonhos são mentirinhas que nós contamos todas as noites para nós mesmos. Sonhar implica em mentir. Quem cria mente uma realidade. Mentimos várias vezes para nos convencermos. A repetição nos faz ficar acostumados com uma falsa realidade, que mais pra frente se torna a única coisa que tivemos durante um bom tempo. E ela fica familiar.

Se for fugir, fuja com estilo. Comece mentindo, sonhando, e logo você estará tão longe que só enxergue águas por todos os lados e quem sabe você não acha o seu peixe grande, pescador? Ou quem sabe, se afogue...

09 maio 2010

À noite

Um bar
Uma mesa
Um olhar
Uma presa
Um altar
Sobremesa
Um lar
Uma certeza
Um par
Uma fraqueza
Não amar
Ela era Teresa
Ele Baltasar.

04 maio 2010

Pare de esperar, espere! (Projeto Telefone sem fio)

Ilustra: Soledad Cifuentes
Pare de esperar, espere!

15 abril 2010

Dez motivações

Você olha, dá um sorriso.
Ela olha, levanta a sobrancelha e sorri também.
É um sinal, você não pode negar.
Se pergunta se o sorriso é pra você ou se é pra ela mesma.
Ela tem tempo.
Você vai arriscar, vai até ela..., Não! Espera! Ela tá olhando pra outro...
Poxa, pior que não, é pra você mesmo. Você não tem mais tempo, precisa ir falar com ela.
Você vai.
Puxa conversa, ela sorri novamente, te abraça.
A... nestesia. Oi? Volta rapaz! Fale com ela!! Fale com ela!!
Ufa, será que ela percebeu que eu não tava aqui? Acho que não.
Você olha nos olhos. Ah que olhos!!
Hey, acorda! Ela tá olhando ow!
Vocês trocam algumas frases, pupilas se dilatam.
Ela volta para onde estava, estava ocupada trabalhando. Você usa seu tempo que não tem para olhar pra ela agora de longe.
Droga, lá vem as espectativas e você já está decepcionado.
"Hey, não desista!"
Quem disse que você desistiu?

13 abril 2010

Num dado momento (Projeto Telefone sem fio)

Ilustra: Soledad Cifuentes

Num dado momento
Não sei se era sorte ou se ela lamento
Meio que de fora, meio que de dentro
Um sopro de alegria
Meio que vinha, meio que ia
Trazendo o antes pra depois
Meio que no meio de nós dois
Um prato de feijão com arroz

Numa dada hora
Parecia que não era agora
Que vinha tudo de fora
Meio na vinda, meio de ir embora
De onde não se vinga a ameaça
Medo da vida, medo da caça
Meia vida, meia taça

Era dado como morto
Meio sem tempo, meio sem sentido
Era tudo, menos sabido
Agia como se tivesse, mesmo sem ter tido
(O seu destino desvairido)
Contrário a toda corrente
De fato o mais iminente
Meio cheio, meio vazio
No meio de tudo, no meio do rio
Meio sortudo, meio sombrio
Meio confuso, meio colorido
Meio a meio e não se fala mais nisso!

07 abril 2010

Doador

Doa a quem doer esse é o meu dom
Não é meu aquilo que me dão
Doe a quem doar deu no que deu
Comprei o que "cê" me vendeu

É "mais do que nunca"
É "permaneça"
O amor não tem desculpa
Tem dor de cabeça

30 março 2010

Confeiteiro



Por uma fração de segundos se apaixona 3 vezes
Se trai a cada piscadela
Compra os mais caros em segredo e pros outros diz que é indiferente
Doa os livros que nunca leu dizendo que podem mudar a vida de alguém
Se vende por um preço superestimado e insite em ver mérito nisso
Diz que admira quem faz o contrário, mas é mentira
Termina uma conversa com silêncio, pra dar um ar de mistério e superioridade
Abraça pra ser abraçado
Veste uma camisa que não é sua, mas gostaria que fosse
Faz de conta que é amargo, mas é doce.

21 março 2010

Antes passado

Tinha intriga
Tinha entrega
Tinha tudo
...tinha nada!

Era surto
Era sorte
Era tudo
... era nada!

Foi feito
Foi feto
Foi fato
Foi tudo
... foi nada!

Meu mundo
Minha muda
Minha muda
... minha nada!

15 março 2010

Temporada de caça (Projeto Telefone sem fio)

Ilustração: Soledad Cifuentes

Julie vivia em uma época em que caçar cervos era uma diversão. Seus irmãos é que gostavam de caçar e ela nunca tinha ido antes, pois era coisa de homem, então só ficava em casa ajudando sua mãe. Tinha um gênio forte e como era a única mulher entre os homens da época, aprendeu a guardar aquilo que sentia. Ultimamente os dias de caça não estavam trazendo muito, já que o cervo que estava sendo caçado havia semanas, permanecia intacto.

Em um dia de caça, Julie saiu para colher alguns temperos para o almoço enquanto seus irmãos, pai e tios estavam a caçar este cervo que vivia em sua terra e teimava em não ser achado (como diziam eles), seja por cães farejadores, seja por caçadores bem experientes.

No momento em que se via procurando alguns condimentos, se assustou ao ver ao longe o cervo, se alimentando, comendo grama fresca, parecendo não ter qualquer preocupação e/ou de estar sendo procurado. Uma figura imponente, um cervo imperial, com chifres imensos. No momento em que ela o viu, ele para de comer e se ergue olhando-a fixamente por um breve momento. Neste instante, Julie sente como se estivesse fora de seu corpo, observando uma natureza que nunca antes tivera oportunidade de ver. Um animal selvagem como aquele, sua tranquilidade, com a natureza verde ao fundo.

Foi então que foi um barulho de cães, cavalos atrás dela a fez sair deste momento de devaneio e começou a fazer barulhos, tentando espantar o cervo. E ele mesmo assim continuou a olhá-la sem se mover. Ela olhou para trás e viu a orda de caçadores se aproximando agora sorrateiramente. Olhou para procurar o cervo e ele já havia sumido.

Julie nunca mais viu este animal desde então, nem mesmo falou sobre o encontro. Alguns meses depois, finalmente ele foi abatido pelos caçadores.

Estendido de cabeça para baixo, ao ver seu amigo errante frio e imaculado, Julie se lembrou do breve momento que teve ao seu encontro e como ele foi bom e repentino. Seu segredo agora não parecia fazer a menor diferença e se sentiu feliz ainda sim por tê-lo espantado naquele momento, dando-lhe um pouco mais do seu tempo de vida. Ela sabia que muito provavelmente sua ação pode não ter feito também diferença ao cervo, já que ele se mantinha vivo até então... mas quem pode culpá-la se era assim que era gostava de pensar.

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Com esse segundo trabalho, terminamos nosso "teste" e gostamos muito do resultado, espero que vocês também. Eu e Soledad, estamos pensando em construir um blog especialmente para este fim, onde cada post teria a contribuição de mais de uma pessoa pelo menos, sejam mídias diferentes ou não.

Esperamos em breve poder anunciar esta criação, até lá iremos nos divertir com mais posts compartilhando pontos de vistas diferentes da mesma paisagem.

12 março 2010

Dissidente

Disse do som dissonante
Da moça errante
Do dom destoante
Do tom distante
Do ponto de partida
Da cara fechada
Do amor à vida
A troco de nada

Ouvi que foi por pouco
Que faltava vontade
Que parecia um louco
Que dava saudade

Então que se fale menos
Que não durma lá em casa
Que vá para Vênus
Só com uma asa

Tenso, denso, penso
Troca, draga, praga
Tricô, droga, prego

06 março 2010

Tom (parte 1/2)



Por um breve momento Tom quis que esse momento se tornasse eterno. Que todo esse sentimento que estava sentindo fosse enviado para todas as pessoas ao redor do mundo tal era sua felicidade... Acordou na manhã seguinte como um viciado, pensando em como ter novamente aquilo que experimentou ontem. Mas Tom sabia que isso não poderia acontecer de novo. Ele sofria de uma maldição.

Tudo começou quando Tom encontra o que pensava ser a pessoa que continha todo o amor e beleza que ele estivera procurando por toda a sua longa, longa, longa vida de 15 anos. O breve momento em que esteve com Emma e se declarou, Tom foi a pessoa mais feliz do mundo. Este dia não é lembrado na sua memória como uma coisa bonita, mas sim como uma cicatriz. Desde então, Tom sente suas costas doendo, rugas aparecem em seu rosto, cicatrizes em lugares diversos a cada novo amor. E por alguma magia as pessoas que proporcionam isso a ele se rejuvenescem, ficam mais belas e de alguma forma imortais.



Hoje é um daqueles dias que Tom pega o telefone para ligar. Ligação feita, telefone agora no gancho, e ele se senta sentindo uma fisgada no braço. Por um momento ele fica em posição fetal se contorcendo e para. Se levanta e continua sua vida no resto de domingo que lhe sobra.

La fora todos os seus amores ainda estão imutáveis, esbanjando uma juventude que ele não tem mais. Mais de 30 anos se passaram e o mundo parece só mudar, o tempo passar só para ele. "Incrível!" ele pensou algumas vezes.

- Como podem estar todas em perfeito estado? Como isso é possível? - questionou Tom.

De alguma forma todos que tinham o toque de Tom, recebiam por ele a eternidade. Como um Midas dava vida eterna ao mesmo tempo que se via morrer.

Hoje não era mais um dia para se questionar sobre essas coisas. Tudo se foi. Ele nunca entendeu e já não queria mais entender.

- Não ia fazer diferença.

Tom continuava a ter os dias mais felizes da sua vida com o conhecimento que isso seria uma única vez com cada pessoa. Essas pessoas entendiam menos ainda o fato de não envelhecerem. Davam crédito à medicina, à alimentação, mas nunca passou por suas cabeças que tivera sido Tom o responsável por essa dádiva ou maldição de viver para sempre.

Hoje ele vai descansar e amanhã se preparar para poder encontrar um dia em que tudo isso terá um fim. Mas hoje não, hoje ele vai se esforçar para dar vida eterna a mais um amor que durou o suficiente para começar todo o processo. Foi-se o dia, nada mais.

Essa era sua sina. Se apaixonava a cada estação na tentativa até agora fracassada de tornar eterno aquilo que ele sentia em um momento mágico...

(continua...)

07 fevereiro 2010

Coisa de nossa cabeça (Projeto Telefone sem fio)


São Paulo parada. Nenhuma via dava acesso, como sempre. Todos estavam querendo chegar em casa. Tudo consequência das chuvas que não cansavam de castigar a grande metrópole fazia algumas semanas seguidas.

Em meio a todo esse caos estava Bianca, Bia para os mais íntimos. Bia voltava para casa com a tranquilidade de quem está a passear por um parque calmo cheio de árvores e muito verde, ou seja, o semblante comum dos transeuntes das grandes cidades. Um ar de avoada, comum a quem parece não ser deste mundo. Estava vivendo mais nesse mundo do que ela mesma gostaria de admitir.

Mora sozinha desde que sua mãe faleceu e agora só recebe algumas visitas da tia, irmã mais velha de sua mãe. Visitas essas que tinham muito mais interesses por parte da tia e Bia se via cada vez mais afastada da única família que havia lhe restado.

O fato é que nossa amiga errante trazia consigo uma tranqüilidade que assustavam até os acelerados a sua volta. Do restaurante que trabalhava como garçonete pegava dois metrôs ela já estava na porta de casa. Era sempre o último horário e estava quase sempre sozinha.

Uma noite voltando para casa, esperando seu metrô, Bia percebeu a existência de uma cia estranha nesta noite. De alguma forma ele lhe parecia familiar. Acenou com um levantar de sobrancelhas e com esse gesto sentiu como se tivesse feito algo automático mas que de alguma forma, naquele momento, lhe trazia também à Terra. Veio a tona então que este ser, que esperava também sua mesma condução, vinha fazendo isso a pelo menos uma semana atrás. Bia nem tinha se dado conta de sua presença até então. Sentaram um de frente para o outro e acabaram iniciando uma conversa. Isso se deu por mais alguns 3 ou 4 dias até que ela soube seu nome, Max.

Queria ela que sua viagem demorasse para que pudesse ter um pouco mais do que conversar com essa pessoa que parecia gostar de passar o tempo com ela. Seus dias se transformaram em noites. Noites estas que se resumiam apenas no final do expediente que vinha para lhe tirar do transe do dia a dia.

Conversas sérias, risadas, um amigo que ela nunca teve. Os problemas que a cidade vinha sentindo ficava cada vez mais longe dos seus e agora ela se concentrava em descobrir como não perder isso que tinha encontrado. Ele era um rapaz que agora chamava muito mais a atenção dela do que quando se conheceram. Ter ele por perto era como se sentir em casa. Quando ela pensava nesse momento dos dois juntos era uma forma de ser transportada para uma lembrança que ela gostava de ter e saber que era compartilhado.

Não sabia seu telefone nem forma alguma de contatá-lo além de seu primeiro nome. Não sabia também se esse nome era verdadeiro. Não conseguia tomar a iniciativa de perguntar mais sobre ele. A internet, tv, rádio anunciavam o fim das enchentes e das chuvas que não cessavam. Mas Bia não se importava pois hoje seria o dia em que ela iria arriscar saber mais sobre esse novo companheiro de viagens.

Depois de comprada a passagem foi ela esperar na estação. Seu companheiro parecia atrasado desta vez. Sua hora chegou e por fim ela sentou em seu lugar, indo pra casa sem ele. Nos dias seguintes o mesmo se repetiu. As mídias anunciavam que as tempestades tinham ido embora e São Paulo não viveria mais por enquanto os alagamentos nem super congestionamentos que parava a cidade. Bia desde então não encontrou mais seu amigo. Se encontrava novamente sozinha na estação todas as noites. Hoje todo dia que chove ela sai mais cedo na esperança de um dia voltar a encontrá-lo passando em frente a estação. Suas lembranças agora a levavam para uma casa do qual ela não gostava de estar.

Nunca havia falado dele para ninguém. Talvez assim ninguém a chamasse de louca ou pensasse que foi coisa de sua cabeça... mas afinal, como poderia deixar de ter sido?

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Gostaria de agradecer à Soledad por ter aceitado participar desta ideia.

A ideia: Ela fazer um ilustra (este que está no topo do post) e depois eu escrever um conto/poema inspirado no mesmo.

Agora será feito o mesmo mas em tempos inversos. Eu farei um conto e depois ela fará um ilustra sobre. Vamos ver como vai ficar. :)

05 fevereiro 2010

Cadarço

Saberia dizer mais de uma vez o que se passa na cabeça de milhões de pessoas mas não o que se passa em sua própria. Sentia falta de não saber como ser doce com os seus próprios sentimentos. Queria entender porque o dos outros lhe parecia tão belo, ingênuo e colorido quando o seu era só mais uma forma estranhada de se sabotar e se esconder atrás daquilo que nunca soube dizer exatamente o que era. Era feito de pedra ou era feito de apostas.

Contava os dias que não esperava nada ao seu redor: ônibus, carinho, solidão... "Era mesmo feito de pedra" pensava ele. Amigo era aquele que estivesse disposto a contrariá-lo infinitamente a ponto de cortar laços. "Laços feitos de apostas"

Laços, algo que não sabia dar, mas sabia desfazer. Engraçado como sobre um pé pode haver tantas metáforas e não ajudar a entender como tirar o fedor do suor de se estar tanto tempo fechado com seus fungos.

Fungos, isso sabia cultivar. Usava contra os outros sim, mas já tinha tanto em volta que era contaminado e causava em si tanto dano como tal. Era pra ser defesa, mas era agora sua única forma de tocar.

O mais belo dos sentimentos não podia nascer em si. Era proibido, seria vendido e de quem iria comprar? Tinha tanta boca, tanta sombra que o sol lá fora doia não só os seus olhos mas a sua alma pela falta do que não tinha. Era feito de livros, filmes e solidão. Tinha medo do cobertor.

Certa feita foi abatido como presa fácil. Nunca mais vontara pela mesma rua, ônibus, escada... todos passavam pelo mesmo lugar e tudo era agora tão pequeno que ele teria que se acostumar a trocar espaço com uma bomba relógio. A cada dia sentia mais medo, mais dor, mais do que a bomba poderia em vida causar. Pois essa era a sua cina, sofrer o máximo que pudesse.

Estava sendo muito bem sucedido quando se viu traído pelos seus fungos. O mofo começava a ganhar cores diferentes, o que era sombra virou aliada. Aliada contra si mesmo. Tentando voltar a ser como era, voltar as horas do relógio-bomba. Mas já era tarde demais, algo tinha acontecido e sobre todos os seus pés e falsos cognatos, um mar de dúvidas inundou sua colheita defensora. Um profundo sentir, furtivo aos olhos de um atendo demais. Nascia em si então o que o seu delírio antes costumava chamar de cegueira.

04 fevereiro 2010

Passatempo


Torna trecho, torna turno
Hora vai, hora vem
Torna tudo, taciturno
Hora tem, hora nem
Torna terno, torna forno
Hora meu, hora seu
Torna tenro, torna torno
Hora estábulo, hora liceu
Torna trenó, torna trena
Hora rena, hora trem
Torna eterno, torna teima
Torna torto que por hora entretem

Favorito



Clico em você na confiança
Na minha estante divagante
Sem saber o porquê da aliança
Meu instante delirante

Fiz por puro comodismo
Para ter sempre a vista
Se torna agora meu abismo
Meu divã, analista

Meu ícone por acaso
Minha visita diária
Meu favorito guardado
Meu segredo quadrado

24 janeiro 2010

Imperfeito

Visto você vindo
Fico fácil fervente
Tendo tido tudo tinindo
Corro contra corrente

Sonso som só
Fosse feito fosso
Que come quase quanto quer
Da dádiva do desconhecido
Ao ar árido agora abismado

Ontem outros olhos
Que controlavam quatro cantos
Hoje habitat hostil
Entregues entre escolhas
Donde da dúvida de despistar
Só sei saborear

20 janeiro 2010

Ele foi apanhado por uma vontade imensa de chorar, mas não conseguia. A única vez que ele foi feliz em chorar foi com ela, e talvez ele não sentisse que devesse manchar seu quadro com essa reação (que até o momento não tinha sentido mais) que tivera se tornado tão bonita desde então. O problema é engolir sozinho quando se esperava poder sempre dividir com ela tais coisas,... mas essa coisa, agora, era só dele. Falta de ar, calafrio. Mal sabia ele que para sua cura bastava um telefonema.

19 janeiro 2010

Original do rascunho

Queria escrever um rascunho pra poder depois arrumar e fazer algo melhor. Acontece que a mania de voltar e ler de novo é agora uma forma de mentir sobre o que havia escrito. É como tirar uma foto e arrumar no photoshop ou como dar conselhos.

Meu rascunho foi escrito tal como deveria ter sido. Não tirei nem coloquei nada que não fosse do momento. Agora, eu tenho momentos em que começo a ensaiar um arrependimento. Mas por que será que me arrependo? Será que é por que eu consegui colocar mais de mim do que gostaria ou por que vejo erros que não podem mais ser corrigidos uma vez que foram já publicados e lidos?

Escrever, viver, falar, são formas de colocar o dedo. Algumas vezes a gente tem a oportunidade de mexer no que já foi feito. Outras vezes temos a oportunidade de só arcar com as consequências, sejam elas boas ou ruins. Eu sei que dá vontade de voltar e querer consertar, mas agora eu estou mais interessado em ver e sentir o que um erro pode arrumar.

10 janeiro 2010

Uma breve história do meu tempo

As vezes me vejo em um filme. Mas não um filme qualquer, desses que passam na TV ou no cinema. Me vejo em um filme sobre a minha vida. Já houve momentos em que eu imaginava esse filme como sendo um filme da minha vida atual, eu como um telespectador. Mas não mais. Hoje eu vejo como se fosse um filme antigo, em preto e branco. Como se eu estivesse participando do meu passado. Como se eu, lá no futuro, fosse capaz de voltar no tempo e viver novamente os momentos que eu tanto quero lembrar.

O engraçado é que essa mudança de perspectiva sobre esse filme que eu vejo me fez viver a vida de uma forma bem diferente. Não é que eu pense que é destino as coisas terminarem iguais como uma vez já foram. É que como tudo já aconteceu, eu agora voltei e resolvi vivenciar um filme que foi feito sem mim.

Mesmo ele sendo em preto e branco eu o vejo muito mais colorido. Dou agora cores para o que antes eu chamaria de formas. Um novo mundo de expressões, emoções e distâncias foram tomando conta aqui dentro.

Tudo tem um começo e fim, mas também tem um meio. O meio é o que nos faz. O começo é o que não tem discussão e o fim, bem, o fim acaba sendo o grande mistério, aquele que é pretensioso e capaz de, em muito momentos, tomar conta daquilo que você foi e daquilo que você poderia ter sido.

09 janeiro 2010

Mantra

Um tira, a razão
Um tira a razão
Uma tira sem razão
Uma tira, sem razão

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