30 março 2010

Confeiteiro



Por uma fração de segundos se apaixona 3 vezes
Se trai a cada piscadela
Compra os mais caros em segredo e pros outros diz que é indiferente
Doa os livros que nunca leu dizendo que podem mudar a vida de alguém
Se vende por um preço superestimado e insite em ver mérito nisso
Diz que admira quem faz o contrário, mas é mentira
Termina uma conversa com silêncio, pra dar um ar de mistério e superioridade
Abraça pra ser abraçado
Veste uma camisa que não é sua, mas gostaria que fosse
Faz de conta que é amargo, mas é doce.

21 março 2010

Antes passado

Tinha intriga
Tinha entrega
Tinha tudo
...tinha nada!

Era surto
Era sorte
Era tudo
... era nada!

Foi feito
Foi feto
Foi fato
Foi tudo
... foi nada!

Meu mundo
Minha muda
Minha muda
... minha nada!

15 março 2010

Temporada de caça (Projeto Telefone sem fio)

Ilustração: Soledad Cifuentes

Julie vivia em uma época em que caçar cervos era uma diversão. Seus irmãos é que gostavam de caçar e ela nunca tinha ido antes, pois era coisa de homem, então só ficava em casa ajudando sua mãe. Tinha um gênio forte e como era a única mulher entre os homens da época, aprendeu a guardar aquilo que sentia. Ultimamente os dias de caça não estavam trazendo muito, já que o cervo que estava sendo caçado havia semanas, permanecia intacto.

Em um dia de caça, Julie saiu para colher alguns temperos para o almoço enquanto seus irmãos, pai e tios estavam a caçar este cervo que vivia em sua terra e teimava em não ser achado (como diziam eles), seja por cães farejadores, seja por caçadores bem experientes.

No momento em que se via procurando alguns condimentos, se assustou ao ver ao longe o cervo, se alimentando, comendo grama fresca, parecendo não ter qualquer preocupação e/ou de estar sendo procurado. Uma figura imponente, um cervo imperial, com chifres imensos. No momento em que ela o viu, ele para de comer e se ergue olhando-a fixamente por um breve momento. Neste instante, Julie sente como se estivesse fora de seu corpo, observando uma natureza que nunca antes tivera oportunidade de ver. Um animal selvagem como aquele, sua tranquilidade, com a natureza verde ao fundo.

Foi então que foi um barulho de cães, cavalos atrás dela a fez sair deste momento de devaneio e começou a fazer barulhos, tentando espantar o cervo. E ele mesmo assim continuou a olhá-la sem se mover. Ela olhou para trás e viu a orda de caçadores se aproximando agora sorrateiramente. Olhou para procurar o cervo e ele já havia sumido.

Julie nunca mais viu este animal desde então, nem mesmo falou sobre o encontro. Alguns meses depois, finalmente ele foi abatido pelos caçadores.

Estendido de cabeça para baixo, ao ver seu amigo errante frio e imaculado, Julie se lembrou do breve momento que teve ao seu encontro e como ele foi bom e repentino. Seu segredo agora não parecia fazer a menor diferença e se sentiu feliz ainda sim por tê-lo espantado naquele momento, dando-lhe um pouco mais do seu tempo de vida. Ela sabia que muito provavelmente sua ação pode não ter feito também diferença ao cervo, já que ele se mantinha vivo até então... mas quem pode culpá-la se era assim que era gostava de pensar.

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Com esse segundo trabalho, terminamos nosso "teste" e gostamos muito do resultado, espero que vocês também. Eu e Soledad, estamos pensando em construir um blog especialmente para este fim, onde cada post teria a contribuição de mais de uma pessoa pelo menos, sejam mídias diferentes ou não.

Esperamos em breve poder anunciar esta criação, até lá iremos nos divertir com mais posts compartilhando pontos de vistas diferentes da mesma paisagem.

12 março 2010

Dissidente

Disse do som dissonante
Da moça errante
Do dom destoante
Do tom distante
Do ponto de partida
Da cara fechada
Do amor à vida
A troco de nada

Ouvi que foi por pouco
Que faltava vontade
Que parecia um louco
Que dava saudade

Então que se fale menos
Que não durma lá em casa
Que vá para Vênus
Só com uma asa

Tenso, denso, penso
Troca, draga, praga
Tricô, droga, prego

06 março 2010

Tom (parte 1/2)



Por um breve momento Tom quis que esse momento se tornasse eterno. Que todo esse sentimento que estava sentindo fosse enviado para todas as pessoas ao redor do mundo tal era sua felicidade... Acordou na manhã seguinte como um viciado, pensando em como ter novamente aquilo que experimentou ontem. Mas Tom sabia que isso não poderia acontecer de novo. Ele sofria de uma maldição.

Tudo começou quando Tom encontra o que pensava ser a pessoa que continha todo o amor e beleza que ele estivera procurando por toda a sua longa, longa, longa vida de 15 anos. O breve momento em que esteve com Emma e se declarou, Tom foi a pessoa mais feliz do mundo. Este dia não é lembrado na sua memória como uma coisa bonita, mas sim como uma cicatriz. Desde então, Tom sente suas costas doendo, rugas aparecem em seu rosto, cicatrizes em lugares diversos a cada novo amor. E por alguma magia as pessoas que proporcionam isso a ele se rejuvenescem, ficam mais belas e de alguma forma imortais.



Hoje é um daqueles dias que Tom pega o telefone para ligar. Ligação feita, telefone agora no gancho, e ele se senta sentindo uma fisgada no braço. Por um momento ele fica em posição fetal se contorcendo e para. Se levanta e continua sua vida no resto de domingo que lhe sobra.

La fora todos os seus amores ainda estão imutáveis, esbanjando uma juventude que ele não tem mais. Mais de 30 anos se passaram e o mundo parece só mudar, o tempo passar só para ele. "Incrível!" ele pensou algumas vezes.

- Como podem estar todas em perfeito estado? Como isso é possível? - questionou Tom.

De alguma forma todos que tinham o toque de Tom, recebiam por ele a eternidade. Como um Midas dava vida eterna ao mesmo tempo que se via morrer.

Hoje não era mais um dia para se questionar sobre essas coisas. Tudo se foi. Ele nunca entendeu e já não queria mais entender.

- Não ia fazer diferença.

Tom continuava a ter os dias mais felizes da sua vida com o conhecimento que isso seria uma única vez com cada pessoa. Essas pessoas entendiam menos ainda o fato de não envelhecerem. Davam crédito à medicina, à alimentação, mas nunca passou por suas cabeças que tivera sido Tom o responsável por essa dádiva ou maldição de viver para sempre.

Hoje ele vai descansar e amanhã se preparar para poder encontrar um dia em que tudo isso terá um fim. Mas hoje não, hoje ele vai se esforçar para dar vida eterna a mais um amor que durou o suficiente para começar todo o processo. Foi-se o dia, nada mais.

Essa era sua sina. Se apaixonava a cada estação na tentativa até agora fracassada de tornar eterno aquilo que ele sentia em um momento mágico...

(continua...)

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