22 outubro 2012

Olá, tem alguém ai?

...Daí então você aprende, passa a vida aprendendo e morre sem saber. Quer encontrar a desgraça em forma de felicidade pra poder se dizer digno e ao mesmo tempo merecedor. Era pra ser inteligente, mas agora só conta um passado remoto de condecorações que não lhe servem pra mais nada. O mundo é assim: Você sabe que vão te cortar em pedaços, mas paga pra ver e passa a maior parte do tempo tentando recolher o que sobrou de ti, mesmo sabendo que conseguirá no máximo ser agora um Frankenstein. Você está vivo, mas carrega dentro de si um abajur que pisca dizendo que ainda funciona, só que você sempre liga ele em 220V quando o coitado já nem 110V aguenta mais.
Você abre uma brecha pra poder deixar o ar lá de fora entrar, com medo de entrar demais e esfriar a lareira que agora só é brasa morna. Você ainda consegue fazer o sorriso da Monalisa achando que pertencerá a um grupo que nem mesmo existe e que mesmo assim não quer você.
Era pra soar melancólico sem nexo, mas infelizmente você se vê nessa sangria. Era pra ter sido passado, mas ninguém o quer, ...embrulhe-se pra presente.
Era pra ter sido abatido a muitos anos atrás, junto com a manada que pertencia, mas foi arredio e fugiu e olha no que deu! ...agora quer voltar.
Anime-se, vá! Se fosse verdade você está no lucro, e você não está, ou está? Logo se lembrará que tudo isso não passa de umas palavras mal escritas e que tudo deve ser mentira, provavelmente.

19 outubro 2012

Eu tenho pena

Eu tenho pena dos que saem a noite sem rumo
Tenho pena porque só elas sabem do que estou falando
Tenho pena do escuro, porque, é claro, ninguém o vê
Tenho pena da luz, porque esconde a fonte
Tenho pena dos desiludidos pelo amor
Tenho pena da moça que só tira a roupa porque sente calor

Eu tenho pena da família do suicida
Tenho pena da carne moída
Tenho pena do rei no castelo, da côrte e da nobreza
Tenho pena da lei do martelo, da sorte e da lerdeza
Tenho pena daqueles que dependem da mesma
Tenho pena dos que esperam
Tenho pena dos que perdem tempo
Tenho pena dos que cuidam
Tenho pena dos que guardam rancor
Tenho pena de mim e quem mais for

Tenho tanta pena que não me esqueço quem eu sou
Sou uma ave que de tanta pena não sabe levantar voo

17 outubro 2012

João bobo

Deixa eu fingir com você
Deixa eu fingir que somos unidos, que temos conexão
Deixa eu fingir que temos uma vida normal, que temos algo em comum
Deixa eu fingir que o nosso futuro é promissor, desejado por qualquer um

Vamos fingir que não temos nenhum contrato social, contrariando a realidade
Vamos fingir que de vez em quando sentimos saudade
Vamos diminuir a intensidade da luz para fingir que temos interesse no que não estamos vendo
Vamos fingir que temos, mesmo não tendo
Vamos amaciar a carne e comê-la crua
Vamos fingir que essa carne é minha e não sua
Vamos amolecer os corações dos outros amantes com nossos beijos
Vamos fingir que esses beijos são músicas com lindos arpejos

Eu preciso fingir que dizer é não mentir
Eu preciso dizer que fingir é como não sentir
Eu preciso agora dizer que eu sinto, sinto muito
E eu preciso dizer que eu fingi o tempo todo
Eu te amo, foi tudo um engano
Era pra ser uma brincadeira, eu sou um bobo... seu bobo.

14 outubro 2012

Triste fim da bolsa de valores

Adalberto vestiu seu jaleco xadrez e colocou seu chapéu e todos os apetrechos que lhe eram exigidos para sua tarefa, estava pronto para mais um dia.
Era muito rico e por isso distribuía o que tinha de mais precioso aos outros, não importasse quem. Assim ele recebia de volta muito mais do que entregara, e guardava para si. E com isso ele juntava uma fortuna que todos os dias a noite ele as trazia novamente na cama, antes de dormir, e ficava admirando sua riqueza... É fato que no final do dia toda ela era utilizada e era necessário juntar mais o mesmo montante, pelo menos, no dia seguinte. Seu bem era perecível, sua riqueza não podia ser acumulada.

A casa de Adalberto também era muito rica, obviamente, e era muito visitada pelas pessoas que compravam os serviços de seu dono, que vale aqui salientar, sempre fez questão de nunca cobrar por isso.

Se passaram alguns anos e o nosso protagonista se viu em uma situação difícil de lidar. Algumas pessoas não queriam mais a sua riqueza de graça e preferiam a miséria, coisa que ele não conseguia entender. Ele não teve escolha a não ser cobrar para que ela fosse entregue, uma vez que agora sim as pessoas permitiam, pois era a nova forma de se distribuir o que se tinha. Era preciso cobrar antes para depois entregar. Chamavam de troca.

A troca por um momento fez seu papel e parecia ser realmente a reinvenção da forma como Adalberto lidava com suas riquezas, e não só dele como a de todo o mundo. O fato é que nada mais era feito sem troca. Tudo era cobrado e antecipadamente, mesmo sem ter nada para distribuir as pessoas cobravam. A cobrança já era feita sem medida alguma, ao ponto que os bens foram se esvaindo e só sobraram as contas, as dívidas e a miséria generalizada. Adalberto não conseguia mais doar sua fortuna porque diziam não poderem mais pagar por ela.

A riqueza era a alegria, o sorriso, um abraço, um olhar... uma cia.

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